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Sunday on the banks of the River Marne, 1938

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A tranquilidade impera e o rio está calmo, nem o vento se faz anunciar. Os homens já terminaram a refeição e o último enche mais um copo de vinho, alheio a algo que a mulher de pernas cruzadas à sua frente parece tentar dizer num esforço para contrariar o silêncio dominante. A segunda mulher parece relutante em abandonar a iguaria que se prepara para provar. Por sua vez, o marido já pousou o prato e afastou o copo, participando na fútil tentativa para contrariar a melancolia, ao mesmo tempo que nos esconde da vista – num inconsciente acto protector – um quinto elemento, provavelmente a sua filha.

Os dois casais, ainda que de costas, parecem revelar toda a sua verdade, a sua essência: uma família de classe trabalhadora, oriunda de um meio rural e calmo, longe dos ruídos das máquinas e da cidade… o mundo para eles, parece ser apenas ali e não mais.

Não costumo associar os autores às suas obras e nesta imagem em particular nunca tinha entendido realmente o que a tornava impossível à memória de apagar. Seria a aparente banalidade do tema, a simples curiosidade de tentar entender porque era esta imagem tão importante e icónica de uma obra tão vasta como a de Cartier-Bresson?

Muito se poderá dizer sobre como terá conseguido esta composição, que muitos comparam com pinturas como Un Dimanche Après-midi à l’ille de la Grande Jatte de George Seurat e Rue de Paris, Temps de Pluie de Gustave Caillebotte… a imagem, apesar de a preto e branco, “é uma melancolia colorida” de tão real que se apresenta. Inseparável da sua Leica, usava quase sempre uma objective de 50mm e esta torna clara a proximidade ao tema, sugerindo numa primeira análise que ele tenha interagido com aquelas pessoas e esperado pelo seu instante decisivo para “disparar”. Parece claro que assim tenha sido, não fosse tão forte a sensação suscitada: a ausência do fotógrafo. Isto é, de facto, o que me fascina nesta imagem, o seu Punctum se assim quisermos: a fronteira quase imperceptível mas presente entre o observador e o tema. A linha ténue que divide o espaço que o fotógrafo conseguiu ocupar sem (aparentemente) se intrometer no cenário existente. Quase como se a sua presença não fosse perceptível sendo o único indicio disso mesmo o facto de a fotografia existir e, comprovar que, de facto, Cartier-Bresson esteve lá e fez parte daquele momento.

O maior feito desta imagem é portanto a capacidade de transportar o Spectatore ao sítio e sentir – mais do que ver – que se está lá, como observador e para além da objectiva do fotógrafo. Esta é mesma magia que encontro no cinema, mas enquanto este transporta o espectador do real para a ficção, a fotografia – esta fotografia – faz o inverso: aqui nós somos a ficção, porque não estivemos lá, mas sentimo-nos parte da realidade que a imagem evoca. Um dos maiores desafios na fotografia será, porventura, aquele que se impões a partir do instante em que o retratado se dá conta que o é, de facto – “(…) a partir do momento em que me sinto olhado pela objectiva, tudo muda: preparo-me para a pose, fabrico instantaneamente outro corpo, metamorfoseio-me em imagem” (BARTHES, 1980, p. 25) – e o contrário de tudo isto transparece nesta imagem, como se mais do que a ausência da câmara fosse também a inexistência do fotógrafo possível. Cartier-Bresson era, de facto, o “homem invisível das multidões” (MACÉ, 2004, p.7) como o próprio confirmaria quando escreveu: “ A minha notoriedade é um fardo pesado: (…) passei toda a minha vida a tentar ser imperceptível por forma a observar melhor”. Para reforçar tudo isto, a técnica sem artifícios – “(…) ela é importante na medida em que devemos dominá-la para transmitir o que vemos” – e a composição formal e equilibrada, uma constante nas suas obras, a extensão do seu olhar através da máquina, traduzido nesta imagem em realidade e honestidade.

A fotografia é bastante intemporal mas a sua data, aliada ao conteúdo, torna-se ainda mais importante se considerarmos o contexto em que se insere: o idílio e tranquilidade presentes nesta imagem de 1938 parecem servir de contraste para o que se seguiria depois: em 1939 os Alemães invadiriam a Polónia dando início à 2ª Guerra Mundial. Em breve também a França seria ocupada e Cartier- Bresson feito prisioneiro…

Henri Cartier-Bresson nasceu em Chanteloupe, França, em 1908. Estudou pintura no início dos anos 20, iniciando-se na fotografia em 1931 poucos anos depois da Leica lançar o seu primeiro modelo de 35 mm no mercado.

Para além da fotografia também participou na realização de alguns filmes, realizando um documentário sobre a guerra civil de Espanha.

Em 1940 é feito prisioneiro de guerra dos alemães. Escapando três anos depois e juntando-se ao movimento de resistência francês, MNPGD.

Foi um dos fundadores da agência fotográfica Magnum, em 1947 ao lado de Robert Capa, George Rodger  David “Chin” Seymour e Bill Vandivert.

Viajou um pouco por todo o mundo, foi o primeiro fotógrafo ocidental autorizado na USSR. Autor de várias publicações, torna-se emblemático pela criação do conceito Instante Decisivo.

No início dos anos 70 abandona a fotografia para se dedicar em definitivo à pintura. Morre em 2004.

Bibliografia:

BARTHES Roland, A Câmara Clara, Liboa, Edições 70, 2005

CARTIER-BRESSON Henri, Des Images et Des Mots, Musumesi, DELPIRE, 2004

CARTIER-BRESSON Henri, O Imaginário Segundo a Natureza, Barcelona, Editorial Gustavo Sillu, 2004

FREUND Giséle, Fotografia e Sociedade, Mafra, VEGA, 1995

SONTAG Susan, On Photography, 2002, Penguin Books

SOUGEZ M.L., História da Fotografia, Lisboa, Dinalivro, 2001

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Mirror noir

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London Calling

Bizarre Love Triangle

Bizarre Love Triangle

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Cloths Of Heaven

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Had I the heaven’s embroidered cloths,
 Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

William Butler Yeats

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1soLamento

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