
Bizarre Love Triangle
Filed under: Fotografia
Just another WordPress.com weblog
Abril 27, 2009 • 8:11 pm 0

Had I the heaven’s embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
William Butler Yeats
Filed under: Fotografia
Abril 27, 2009 • 7:58 pm 3
Roland Barthes aborda a temática da fotografia, não através de uma identificação das suas diferentes manifestações – a vulgar caracterização retrato ou paisagem, profissional ou amadora – mas antes analisando a fotografia como um todo, concebendo um método de classificação da mesma, de forma a definir a sua essência.
Numa abordagem inicial, que o autor descreve como falhada no final da primeira parte do livro, faz uma reflexão meramente pessoal e, diria mesmo, apaixonada do tema. O próprio reconhece que “a subjectividade reduzida ao seu projecto hedonista não podia reconhecer o Universal” (p.88). A palavra paixão torna-se, presumivelmente, o motivo do seu erro já que a sua avaliação não é isenta, é uma investigação conduzida excessivamente com base naquilo que a fotografia lhe provoca. No entanto, ao assumir esse risco, Barthes consegue-nos transportar com ele na sua demanda, em direcção ao âmago da fotografia.
Através da criação de uma terminologia tão inédita quanto apropriada, torna claro o seu processo de descoberta: designa como “Operator” o fotógrafo, nomeia como “Spectator” aquele que vê a imagem, classifica de “Spectrum” o referente fotográfico, adopta o “Studium” para o despertar de interesse ou indiferença e reconhece, por fim, o “Punctum” onde, casualmente, existe uma sensação específica, a ferida, o choque, o pormenor que estabelece uma relação directa e imediata com quem vê a imagem.
O autor defende que a fotografia, ao contrário das outras artes, é impermeável a signos, aos códigos da cultura e da linguagem. Estabelece uma interessante analogia entre a Fotografia e a Morte, defendendo que a foto metamorfoseia o ser em objecto. Compara-a ao teatro em detrimento da pintura: “ A Foto é como um teatro primitivo, como um Quadro vivo, a figuração do rosto imóvel e pintado sob o qual vemos os mortos” (p.53).
Na segunda metade do livro vemos Barthes aprofundar a sua análise ao mesmo tempo que faz um tributo à sua recém-falecida mãe.
Explora agora profundamente as manifestações do seu desejo, usando para isso tudo que desvendara na primeira parte. A partir da observação de fotografias – cujo mote é o seu próprio luto – descobre na fotografia a manifestação inexorável do real: ”toda a fotografia é um certificado de presença” (p.122). Alarga também a sua concepção de “punctum” ao Tempo, encontrando nele o “isto foi” o qual se torna inequivocamente para Barthes o “noema” da Fotografia, e esta, consequentemente, um objecto etnográfico incontestável.
Voltando a associar a Fotografia e a Morte, estabelece então uma nova relação que exemplifica melhor da seguinte forma: “Diante da foto da minha mãe criança, digo para mim mesmo: ela vai morrer” (p.135).
Termina a sua obra derradeira com o vislumbre de duas escolhas possíveis na Fotografia: a fotografia do realismo contingente a preocupações de teor estético e empírico ou a fotografia do realismo puro e absoluto, aquela que transporta consigo “o despertar da inacessível realidade” (p.164).
Esta obra revela a foto como um objecto no qual se pode encontrar um instante de vida que nos remete para um lugar entre o passado e o presente, o acto fotográfico como a materialização da morte. Esse conceito entra em conflito directo com uma noção que tinha presente em mim, a da perpetuação através da fotografia; de facto é comum ouvirmos dizer que algo ou alguém foi imortalizado pela objectiva de “tal” fotógrafo, mas o que de facto acontece quando vejo o registo passado de um retrato meu é dizer: “eu era assim” ou “este era eu”.
Outra questão se põe quando o autor define três práticas associadas à fotografia: “fazer, experimentar, olhar” (p.23). Demitindo-se de responsabilidades na primeira – assume que não é fotógrafo – mostra desconhecimento numa das suas facetas e, ao fazê-lo, para além de condicionar a sua própria investigação, parece-me entrar em contradição com a sua visão global da fotografia. Se a procura ver como um todo, sem diferenciação entre quem a pratica, não se deveria colocar a questão do amadorismo. Será possível que um apaixonado pela fotografia como Barthes nunca tenha realizado uma única foto?
O que é certo é que ao faze-lo enfatiza a noção de que o seu estudo remete para a perspectiva do “Spectator” (aquele que vê) e não do “Operator” (aquele que faz).
Esta desvalorização de diferença entre profissional e amador que o autor procura na sua tese original – ver a fotografia na sua totalidade – remete-nos para uma reflexão bem actual: a democratização das práticas laboriais, a crescente competição entre profissionais e amadores, a proliferação do acto criativo proporcionado pelo advento da internet e dos novos meios digitais.
Quando lemos “nada pode impedir que a fotografia seja analógica” (p.124) certamente não ficamos impassíveis a contestar, ainda mais com o duplo sentido que a afirmação obtém pelos instrumentos hoje conhecidos. A ideia de que a fotografia traduz sempre o real não se adequa aos dias de hoje e tenho sérias dúvidas que alguma vez o tenha feito com absoluto rigor. “O que foi” nunca esteve completamente desprovido de logro, houve manipulação da imagem desde os primórdios da fotografia.
No entanto, esta noção não desvaloriza a teoria de Barthes se a entendermos pelo seu prisma: a definição do real que ele procura não é apenas o que estava lá, mas também, e fundamentalmente, o que ele identifica como sendo real para si. Artifícios já existiam no tempo de Nadar que, tal como Barthes, procurava a essência das coisas, a alma do retratado e repudiava o “… retoque, que retira ao rosto qualquer expressão interior e o transforma numa imagem vulgar, demasiadamente acabada e sem vida…” (FREUND, 1995: 53). Para Barthes, a fotografia acontece não quando surge como uma recomposição mas antes como uma confirmação de que algo existiu de facto; ou lhe existe ou não.
É inconsequente, portanto, questionar se o autor descobriu a verdade “universal” da fotografia. Parece-me claro que encontrou a sua própria verdade, a sua realidade, bem patente no exemplo citado na “Fotografia do Jardim de Inverno”, quando finalmente revisitou a sua mãe recém-falecida, no meio de tantas outras fotos onde, com ou sem artifícios, não a via de todo.
Independentemente de ser infalível ou ineficaz, considero que o modelo da investigação de Barthes é proveitoso: é apaixonado e a meu ver apaixonante; é certamente pessoal e talvez, por isso, necessariamente intransmissível. Certo é que o autor consegue transmitir o seu ponto de vista de forma inequívoca e, nesse sentido, parece-me que a sua averiguação é bem conseguida. Não será, porventura, uma definição universal ou intemporal da Fotografia, mas é, seguramente, o significado da Fotografia para Barthes.
Apropriando-me da filologia, reconheço na sua obra o studium, mas o que me prende à sua narrativa é o seu punctum, o detalhe materializado através da paixão do autor pela fotografia, e deixo portanto de ver – como ele o fez – a sua verdade universal mas antes a conferida pelo próprio, o pormenor ao qual não consigo ficar indiferente.
Seria fácil defender-se se estivesse entre nós e penso que o faria dizendo simplesmente que fotografia, para ele, era outra coisa. E essa coisa está bem presente no seu livro. Talvez a fotografia não seja mais a morte, como Barthes a conheceu, talvez esteja simplesmente morta (MIRZOEFF, 1999: 65).
BIBLIOGRAFIA:
BARTHES Roland, A Câmara Clara, Lisboa, Edições 70, 2005, 172 p.
MIRZOEFF Nicholas, An Introduction To Visual Culture, Londres, Nova Iorque, Routledge, 1999, 274 p.
FREUND Gisèle, Fotografia e Sociedade, Mafra, Vega, 1995, 214 p.
TÀPIES, Antoni, A prática da Arte, Lisboa, Edições Cotovia, 2002, 212p.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
SOUGEZ Marie-Loup, História da Fotografia, Lisboa, Dinalivro, 2001
SONTAG Susan, On Photography, Penguin Books, 2002
Filed under: Ficha de Leitura, A Camara Clara, Roland Barthes
Tema: Grid Focus por Derek Punsalan.

